| |
Artigos
A Qualidade Saiu de Moda?
José Eduardo Amaral Leal*
Nas ultimas décadas,
aqueles que acompanham, como nós, as diversas abordagens disponíveis para
melhorar o desempenho e gestão de empresas e organizações têm se deparado
com uma extensa lista de termos, que passou a ser alimentada com a
velocidade da Internet, sendo cada um deles defendido e divulgado, com
maior ou menor entusiasmo, por acadêmicos, consultores e gerentes
realizadores.
Em sua interessante
obra denominada “Vencendo com as melhores idéias”, publicada pela Editora
Campus (2002), os “gurus” de negócios Thomas Davenport e Laurence Prussak
listam pelo menos 140 dessas idéias, entre milhares de outras existentes,
que vêm ocupando o imaginário e o dia a dia de executivos e gerentes, no
passado recente: Gestão da Qualidade Total, Reengenharia; Gestão do
Conhecimento; Custeio baseado em Atividades; Empowerment de Trabalhadores
e Balanced Scorecard são apenas algumas das mais conhecidas, seguidas de
Caos/Complexidade; Dinâmica de Sistemas; Aprendizado de Ciclo Duplo;
Inteligência Competitiva; Análise Prospectiva; Teoria dos Jogos, entre
outras.
Na verdade, aqueles
autores argumentam que, em sua grande maioria, essas abordagens não são
inteiramente novas e podem ser vistas como diferentes maneiras de se
buscar os benefícios provenientes da eficiência, eficácia e inovação,
esses sim, objetivos “clássicos” empresariais de todo gerente
esclarecido.
As diferentes
abordagens se alternam, se complementam, ou podem ser, eventualmente,
mutuamente excludentes. Seus dois ciclos de vida aparentes - o interno
(dentro de uma empresa ou organização) e o externo (sua popularidade ou
aceitação na mídia) – nem sempre estão sincronizados, mas, de uma maneira
geral, tendem a ser cada vez mais curtos. Em nossa opinião, esses ciclos
parecem seguir a indiscutível tendência de aceleração no ritmo e na
intensidade das mudanças ocorridas nos âmbitos nacional, regional e
mundial, observada nos campos político, econômico, psicossocial, militar,
tecnológico e ambiental, a partir dos anos 80.
Entretanto, segundo
aqueles autores, algumas dessas abordagens de sucesso atingem uma fase
que pode ser denominada de “predominância” em que a idéia está tão
arraigada dentro da organização que parece invisível; todos a praticam
sem pensar nela, que agora está incorporada a tudo que acontece.
Essa parece ser a
situação da Gestão da Qualidade e da Gestão da Qualidade Total nas
grandes empresas americanas.
Nitin Nohria e os
co-autores de “Changing Fortunes: remaking of the industrial corporation”
(2002) assinalam que, ao final da década de 1980, na totalidade daquelas
grandes empresas americanas havia programas de qualidade em
funcionamento. Davenport e Prussak observam que, com a consolidação do
processo, os programas explícitos e departamentos de qualidade começaram
a desaparecer, não porque não tenham sido efetivos, mas, ao contrário,
porque as idéias sobre qualidade já estavam suficientemente disseminadas
para que ninguém mais sentisse necessidade de falar a respeito.
Essa situação
poderia levar o observador menos atento a concluir que as idéias de
qualidade saíram de moda ou, pior, que perderam a sua validade e foram
substituídas em função de outros conceitos mais modernos, uma vez que a
própria mídia registra uma incidência maior de publicações e eventos a
respeito de outras “idéias de plantão” e modismos. Será mesmo?
Mas qual seria, com
relação essa abordagem, a situação das empresas e organizações
brasileiras? Chegamos a atingir, em sua maioria, a fase de
“predominância” ? Ou simplesmente abandonamos, antes de sua consolidação,
os programas de qualidade que, inevitavelmente, enfrentam barreiras
culturais enormes e uma falta de apreço crônica pelo registro de
históricos e pela adoção de práticas consagradas de estabelecimento e
acompanhamento de indicadores de processos, que são taxadas como “coisa
de japonês” ?
Um estudo detalhado
dessa situação, no caso brasileiro, ainda está por ser realizado.
Entretanto, como aparentemente em todas as áreas e atividades neste país,
observamos uma paisagem de grandes contrastes. Ao mesmo tempo em que
temos empresas de classe internacional, certificadas e exportando para os
mercados mais exigentes do mundo, ainda encontramos uma grande incidência
de um tipo de ambiente organizacional em que predominam a total falta de
estrutura e de cultura de práticas básicas da qualidade. E a julgar pelas
altas taxas de mortalidade das empresas brasileiras que, segundo estudo
divulgado pelo IBGE, em 2004, de cada 100 empresas que iniciam suas
operações, apenas 4 (quatro) conseguem ultrapassar o seu quarto ano de
existência, essa situação está longe de ser convenientemente enfrentada.
Além disso, com honrosas exceções, essa também é uma conclusão
recorrente, a inexistência total ou a falta de acompanhamento adequado de
indicadores de qualidade e de produtividade, no diagnóstico estratégico
realizado ao longo de diversas consultorias em empresas e instituições
públicas de todos os portes e áreas de atividades, de que tivemos notícia
ou oportunidade de participar mais diretamente.
Temos, portanto, uma
enorme tarefa pela frente, a de implantar nas empresas e organizações
brasileiras que ainda não despertaram para a importância dessa questão,
idéias e conceitos cujo ciclo de vida externo (na mídia) já entrou num
estágio de declínio de popularidade, e cujo ciclo interno não passou das
fases de “piloto”, “projeto”, ou “programa”, sem que os seus benefícios
ou objetivos clássicos de eficiência, eficácia e inovação tivessem sido
alcançados. Entretanto, essas idéias permanecem como conceitos
fundamentais que permeiam um grande numero de outras abordagens.
Mas, simplesmente,
não temos alternativas. Seja qual for a metodologia de planejamento a ser
adotada para o estabelecimento de objetivos estratégicos, políticas,
estratégias e metas empresariais, descartada, é claro, aquela que
poderíamos chamar de método do “vamolá moçada”, de grande aceitação em
parcela considerável de nossos clubes e equipes de futebol, no qual
predominam o improviso e a falta de preparação adequada, todas elas se
baseiam, com algumas variações de nomenclatura, em algum tipo de
diagnóstico estratégico do sistema e do ambiente onde a organização está
inserida. Esse diagnóstico, por sua vez, não pode prescindir da análise
do comportamento dos indicadores de qualidade e produtividade
(Inteligência do Negócio) em grande medida de natureza quantitativa, e de
outros tipos de indicadores (variáveis externas) ligados ao ambiente, que
são de natureza quantitativa e qualitativa, abordando aspectos relevantes
de natureza política, econômica, psicossocial, tecnológica e,
eventualmente, militar, e que compõe o campo de atuação da Inteligência
Competitiva. Ao não fazê-lo, entramos no perigoso terreno da “Achologia”,
em que substituímos o processo decisório baseado na análise de fatos, por
um outro baseado em simples opiniões e impressões de gerentes, de
executivos ou de consultores externos.
Uma das maneiras de
enfrentarmos esse problema, naquelas empresas e organizações que precisam
que as idéias, para serem adotadas internamente, estejam em evidência na
mídia, para melhorar a sua aceitação, pode ser pegando uma carona em
outras idéias cujo ciclo de vida externo ainda esteja na sua fase
ascendente, e que carreguem no seu bojo os conceitos básicos da
qualidade. Esse parece ser o caso da Gestão do Conhecimento e da
Inteligência Competitiva. Ao tentarmos identificar o que a organização
“sabe”, o que ela ainda “não sabe” e o que “deveria saber” e, ainda,
“quem” deveria ou não ter acesso a essa ou aquela informação, somos
remetidos imediatamente ao trato de questões da qualidade pela
necessidade de estabelecimento e da análise de indicadores e padrões, das
cadeias de cliente/fornecedor internos, e de variáveis relevantes do
ambiente.
Em nossa opinião,
seja qual for a abordagem ou idéia “de entrada” no processo de
planejamento, as questões ligadas ao estabelecimento de indicadores de
qualidade serão sempre atuais e todos os esforços para torná-las
“simplesmente parte de nossa maneira de agir” serão recompensados com uma
melhor compreensão do nosso próprio sistema e de sua ecologia, fatores
indispensáveis para a sobrevivência e adaptação em um ambiente de
crescente complexidade.
*José Eduardo Amaral
Leal é
Consultor de empresas e Diretor da Fábrica Abstrata Planejamento,
Sistemas e Design.
Contato:
eduleal@fabricaabstrata.com.br
Página Pessoal:
http://spaces.msn.com/trescoisas/ |
|