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Artigos
A Necessidade de Planejamento
José Eduardo Amaral Leal*
Neste início de
2005, no momento em que a economia do país dá sinais de alguma
estabilização e os humores e indicadores do mercado, refletindo um certo
clima de otimismo de grandes parcelas da sociedade, apontam para a
necessidade de se realizar investimentos de toda ordem, em busca do tão
almejado desenvolvimento sustentado, mais ressalta a importância da
atividade de Planejamento, lamentavelmente tão pouco difundida e
apreciada entre nós.
E seria tão fácil e
simples avaliar a importância do Planejamento. Bastaria refletir um pouco
sobre as questões que saltam aos olhos quando se constata, como no
momento, uma conjuntura promissora: Investir em quê? Com que objetivos de
médio e longo prazos, com que recursos e prioridades? Quais seriam os
pontos fortes e fracos de nosso sistema, e que ameaças e oportunidades o
ambiente nos apresentaria? Que resistências internas e externas teremos
que enfrentar e quais deverão ser as nossas políticas e estratégias para
gerenciar todo esse emaranhado de fatores?
Infelizmente, no
Brasil, por uma questão cultural, a grande maioria das empresas e
instituições públicas não têm respostas concretas para essas questões
básicas. E essa falta de interesse pelo Planejamento é um dos
diferenciais que nos separam das organizações e países do primeiro mundo.
Vale, todavia,
mencionar algumas meritórias exceções, como a Embrapa, a Embraer, a
Petrobras, o Banco do Brasil e até mesmo a Seleção de Vôlei de
Bernardinho... Observe-se que nas instituições onde se tratou com mais
atenção esse importante aspecto da Administração, que é o Planejamento,
sobrevieram o destaque e o sucesso, em contraste com o clima de
improvisação dominante no ambiente organizacional brasileiro, que nos
leva a obter resultados decepcionantes, muito aquém de nossas reais
possibilidades. Cite-se, a exemplo, a situação dos clubes e equipes no
país do futebol, em flagrante contraste, desfavorável a nós, com os seus
equivalentes europeus... Talento, criatividade e “jogo de cintura” temos
de sobra; o que nos falta, em grande medida, é Planejamento com Visão de
Futuro.
Um primeiro
diagnóstico do problema parece indicar três causas conjunturais,
relacionadas ao ambiente onde nossas organizações estão inseridas, para a
manutenção desse quadro:
• A indiscutível
aceleração no ritmo e na intensidade das mudanças ocorridas nos âmbitos
nacional, regional e mundial, observada nos campos político, econômico,
psicossocial, militar, tecnológico e ambiental, a partir dos anos 80;
• Décadas de
conjunturas econômicas adversas e altamente inflacionárias que o país
teve que enfrentar, no passado recente; e
• No campo
psicossocial, a descrença em “Planos” de toda ordem, dado o insucesso de
quase todos os instituídos desde os anos 40, exceto o Real: SALTE (Saúde,
Alimentação, Transporte e Educação), com Dutra; Metas (50 anos em 5), com
Juscelino, de relativo sucesso, mas responsável por quase 40 anos de
inflação incontrolável; Cruzeiro Novo, com Castello Branco; os dois PND
(Plano Nacional de Desenvolvimento) quinqüenais de Geisel e Figueiredo;
Cruzado, Verão e Bresser, com Sarney; os surrealistas planos da curta era
Collor; Avança Brasil, com FHC; e assim por diante.
Destaque-se,
todavia, algumas importantes iniciativas governamentais, a partir de
1964, tais como a edição do Decreto-Lei 200, de 1967, que reformou
radicalmente a então esclerosada Administração Pública brasileira, e a
criação da Secretaria (depois Ministério) do Planejamento (SEPLAN /
MINIPLAN). É inegável que a criação de um órgão de alto nível,
responsável pelo Planejamento em nível nacional, em estreita coordenação
com o Ministério da Fazenda, trouxe imensos benefícios e reverteu o
quadro desfavorável do início dos anos 60 e propiciou os anos do
“milagre”, até 1973. Relembre-se também o impacto extremamente positivo
para o país da normatização do processo orçamentário. Em contrapartida,
falhou o planejamento, a partir da 1ª crise do petróleo, em 1974... e daí
para a frente, vieram as chamadas “décadas perdidas”, que lançaram às
cinzas o fantástico crescimento do PIB entre 1967 e 1973.
Esses fatores,
associados a outros de natureza cultural e estrutural, que dizem respeito
ao “Sistema Brasil”, criaram um clima favorável à manutenção e à
disseminação de uma cultura do improviso, extremamente voltada para o
curto prazo, em função de reais dificuldades de se planejar visando
horizontes temporais mais distantes.
Infelizmente,
algumas organizações e lideranças que sobreviveram a esse período agudo
de dificuldades de planejamento ficaram com a impressão de que é
possível, e até desejável, viver "apagando incêndios" e amplificam o coro
daqueles que acreditam que não seria realmente necessário, nem possível,
se planejar com visão de futuro. São algumas daquelas pessoas e
instituições que lucram com a venda de “facilidades” em meio ao caos
reinante; ou aquelas outras que deverão, em breve, apenas engrossar as
filas dos guichês de falências e inadimplências que justificam os nossos
elevados índices de mortalidade de empresas e organizações.
O SEBRAE publicou,
em agosto de 2004, o resultado de uma pesquisa que identificou, em nível
nacional, os fatores condicionantes e as taxas de mortalidade de empresas
no Brasil. Os números revelam que, de cada 10 empresas que iniciam suas
operações, apenas quatro conseguem sobreviver ao quarto ano de
existência. A pesquisa foi calcada no levantamento de dados de empresas
(extintas e em operação) que foram cadastrados nas Juntas Comerciais
Estaduais, nos anos de 2000, 2001 e 2002.
Foram identificadas
nas empresas brasileiras as seguintes taxas de mortalidade:
• 49,4% para as
empresas com até dois anos de existência (ano de 2002);
• 56,4% para as
empresas com até três anos de existência (ano de 2001); e
• 59,9% para as
empresas com até quatro anos de existência (ano de 2000).
Mas o que se poderia ou deveria fazer, quando o próprio Estado
brasileiro, ao longo das ultimas décadas, priorizou o planejamento de
curto prazo, descuidando de importantes questões estratégicas e de
importância vital para a Nação? E se, quando realizou algum planejamento
de médio e longo prazo, deu atenção a aspectos menos relevantes e mais
pirotécnicos, chegando até mesmo a terceirizá-lo, realizando uma
concorrência internacional para sua execução? E se, infelizmente, pouco
ficou de concreto dessas iniciativas, e nem mesmo o banco de dados com o
diagnóstico a partir do qual teriam sido tomadas as medidas e decisões de
Governo?
A resposta, ainda
assim, é planejar e, mais que isso, cumprir o que foi planejado!
Ao final de um
processo de planejamento, quando se elabora um Plano Estratégico,
obtém-se muito mais do que a simples materialização do trabalho em um
documento formal; emerge-se com uma melhor compreensão do próprio sistema
(empresa, organização, órgão governamental), do ambiente onde ele está
inserido e de seus atores mais relevantes (clientes, parceiros,
fornecedores, concorrentes, Governo). Este, sim, é o melhor benefício da
realização do processo de planejamento, e não apenas um efeito colateral
favorável: o autoconhecimento e o conhecimento do outro. E essa é a
melhor tecnologia para se lidar com as mudanças inevitáveis de um mundo
complexo e cheio de oportunidades.
Você e sua
organização já realizaram o seu planejamento estratégico para os próximos
dez anos? Na economia globalizada, a sua concorrência que, ao invés de
estar na esquina mais próxima ou no bairro vizinho, pode estar no
primeiro mundo ou nos países emergentes da Ásia, já vem executando os
seus planejamentos há décadas. É por essa razão que se encontra mais bem
preparada para enfrentar essa competição.
E então? Vamos
continuar na "lanterna" desse campeonato?
*José Eduardo Amaral
Leal é
Consultor de empresas e Diretor da Fábrica Abstrata Planejamento,
Sistemas e Design.
Contato:
eduleal@fabricaabstrata.com.br
Página Pessoal:
http://spaces.msn.com/trescoisas/
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